• ALE GOMES

A floresta já foi Savanna



Por 
Liviah Prestes 


O sol que insiste em nascer todos os dias, nos convoca a criar um novo rumo. Aqui na Amazônia dizem que temos um sol por pessoa. Lugar úmido, quente, que faz 30 graus na média, clima propício para alastrar a vida que estiver em pauta. E a pauta dehoje aqui, é esse vírus que alastra sem parar.

Uma pandemia como esta, funciona exatamente como uma guerra, só que com um viés mais democrático. Todas as vezes que há Guerra, quando ela acaba, uma mudança drástica de costumesocorre. Todos os lados do conflito se adaptam a novos hábitos, novos territórios e nomenclaturas, novas famílias se formam.

O vírus não foi declarado por nenhuma nação com interessesligados ao que irá ser acordado em um cenário pós Guerra. Ele aconteceu na China mas não foi criado ou pensado por ela.  

Espalhou por todo o mundo. No mundo dos ignorantes, dos descuidados, dos displicentes e no mundo dos espertos, dos hiper cuidadosos e dos científicos também. Democrático.

Depois do luto dessas mortes todas aqui na nossa Amazônia, e emtodo o Brasil que lidera a rapidez de contágio neste momento,contaremos mortos e feridos. Serão muitos. O que vamos todos fazer dali em diante? Assim como uma Guerra que mais dia menos dia, bem ou mal uma hora acaba, o que faremos depois disso tudo? Eu me chamo Liviah Prestes, sou atriz, agente cultural, brasileira, me mudei em novembro de 2019 para Maués, cidade amazônica, divisa do estado do Amazonas com o Pará. Aqui é rodeado de terra indígena Sateré Mawé. Vim pra cá trabalhar na comunicação, e na parte de arte e cultura de projetos que beneficiam ribeirinhos e indígenas através de tecnologias sociais, pelo IDESAM (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia). Fiz essa mudança porque mesmo muito feliz com meu teatro lotado e indicado ao Premio Shell (principal premio de teatro no Brasil), sentia forte o chamado da mudança. Agora, esse chamado ao novo ficou mais forte ainda.

Terminados os contratos físicos e psíquicos de antes desta pandemia, começarão a valer os novos. E quem os construirá? Ora quem! Todos nós.

Por conta de minha vivência aqui, e dos ensinamentos que este vírus tem dado ao mundo, sugiro que comecemos pelas 3 seguintes tecnologias: autoconhecimento, solidariedade e consumo.

- Autoconhecimento. Saber o que nos faz bem de verdade. Priorizar nossa verdades real, antes de pensar a construção de nossa imagem no facebook e instagram por exemplo. Se conhecer, se cuidar, se assistir, é o começo de tudo.

- Solidariedade. Já mostra sua força agora no auge desta fasepandêmica em que estamos. Se o próximo estiver minimamente bem, não terá motivo pra nos fazer mal ou nos contaminar que seja. - Consumo. Nossos hábitos de consumo precisam mudar, pois são eles que fomentam as cadeias produtivas de todo o planeta. Ovírus que vingou e se propagou é uma mostra de resultado do consumo inconsciente, desenfreado, pois o mesmo não se trata só do que você leva a sua casa, mas de toda a cadeia produtiva que você está fomentando sem saber.

Vou parar nesses três por enquanto, e dar uma dica para cada.

Dica Autoconhecimento.

Saiba sempre sobre você, seu organismo e o seu entorno, local que você vive. A Amazônia é a floresta mais cheia de cura de todas existentes no planeta, e o planeta é de todos. Pensar nela tem relação com pensar em você. Pense e reavalie sempre, tanto o seu jardim, como a sua floresta.

Solidariedade. Aqui na Amazônia tem crescido muito o chamadosetor 3,5 de novos negócios de impacto social. Onde o lucro existe mas é decorrente do bem coletivo ( falarei disso com mais detalhes num próximo artigo).

Note pessoas como Sebastião Salgado, ou nós aqui e muitas outras ONGs e pessoas que tem criado maneiras de ajudar os índios a fim de evitar o genocídio deles. Se os índios sobrevivem, eles no mínimo são importantes por preservarem a natureza e fazerem a ponte entre nós e as tecnologias da floresta. E mesmo que você more numa cidade ou num deserto, você precisa da Floresta viva para sobreviver.

Consumo.

Já ouviu falar em CSA? Comunidade que Sustenta a Agricultura.  Movimento Slow Food? Começou na Itália e hoje qualquer pessoa de qualquer pessoa de qualquer país pode entrar e aprender mais sobre. Grupo Kaiarós, Quintandoca, Armazém do Campo. Na sua cidade deve ter um independente ou ligado a essas redes.

Essas redes de consumo responsável ensinam você a pensar em como consumir de acordo tanto com o que você gosta, como com o que você precisa e te faz bem. E sobre o que você gosta e te faz bem, você aprende mais todo dia, lá na primeira dica de autoconhecer-se.

Essas três mudanças não são fáceis: autoconhecimento, solidariedade e consumo. Mas se começarmos a pesquisar , veremos que é melhor evitar do que  ter de resolver problemas graves.

Os movimentos que citei trabalham as cestas agroecológicas que tem produtos de época, saem mais barato, são livres de venenos e agrotóxicos, ajudam o meio ambiente sendo sustentável por mais tempo, e ainda ajudam a proporcionar o bem viver a comunidades que vivem de agricultura familiar. Tudo isso evita doenças físicas e sociais para todos.

Precisamos começar já a pensar um novo mundo, e experimentar agir nesse mundo mais pensado, mais preparado, para lidar com pragas e vírus como este.

A mudança é íntima. Tem seu tempo, sua velocidade.

Estamos numa espécie de vácuo, de luto, um intervalo que encerra o fim, onde já podemos pensar em como se reinventar na fase de novo início que estará logo adiante.

Conectemos a nós mesmos, a terra nossa e de nossos vizinhos, as necessidades nossas e de nossos vizinhos, e seremos capazes de entender que a Floresta já foi Savana. Será savana de novo e depois floresta mais uma vez. Conectados uns aos outros e a nossa Terra, poderemos preparar cada pólo dessa roda, para esvairnas saídas e depois entrar em um novo ciclo.


 Ilustração: @limdembergmoreira

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