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A Quinta da Bacalhôa​

Atualizado: 6 de Ago de 2020

Por Lu Moreda

Séculos antes de Carlota nascer, uma mulher assume a administração da Ordem de Cristo por legitima vontade de seu pai, o infante D. João.

Dona Brites ou Beatriz, a Senhora de Belas, se hoje vivesse, certamente seria uma Secretária de Estado cuja retórica atrairia milhares de seguidores para suas contas nas redes sociais. Ouso dizer e espero não a deixar furiosa, onde quer que esteja, que seu feed possivelmente destacaria temas como arte e empoderamento feminino.

Articulada, politizada, poderosa, mediadora e conciliadora de conflitos, esta inspiradora mulher do século XV, tem muitos feitos. O mais conhecido na política é a negociação dos termos de paz, na primeira guerra luso-castelhana depois do início dos Descobrimentos. Nas artes, seu legado à Portugal deu-se quando herda de seu pai uma quinta na aldeia de Vila Fresca de Azeitão, no distrito de Setúbal. A quinta de Vila Fresca , como é chamada na altura, torna-se seu canto de repouso e recreação entre o ducado de Beja e a corte, localizada em Lisboa. D.Brites, então, dá início a expansão das casas já lá construídas com inspiração no novo movimento artístico em ebulição em Itália, o renascimento.

O palácio situado na quinta, que hoje é por nós conhecido como Palácio da Bacalhôa, anteriormente também foi conhecido por Palácio dos Albuquerques, após compra da propriedade pelo primogênito do grande navegador da rota do oriente Afonso de Albuquerque, Brás de Albuquerque. A mudança de nomes e proprietários da quinta e palácio não parou por aí.

O famoso nome Quinta da Bacalhôa nasce somente no final do século XVI quando D. Maria Mendonça de Abuquerque, herdeira da quinta por descendência dos Albuquerques, encontra-se viúva e assume a forma feminina da alcunha sarcástico de seu marido, D. Jerônimo Manuel, mais conhecido por “Bacalhau”.

O Palácio e Quinta da Bacalhôa sofreram muitas transformações ao longo dos cinco séculos de existência. Uma delas foi tornar-se uma das maiores produtoras de vinho de Portugal. Hoje, ter a oportunidade de visitar este complexo do enoturismo português equivale à celebração de um ritual.

Percorrer inicialmente as salas do Palácio, desfrutar de cada obra ali exposta, honrar o eco das histórias de seus visionários proprietários até que os olhos sejam atraídos pela luz de um portal com vista para o jardim. É neste momento, ao chegar na sacada, do ápice, entre a arte e as vinhas que nasce a paixão; aquela emoção capaz de fazer do segundo uma eternidade e do inesperado algo inesquecível.

A paixão sem sombra de dúvida é o sentimento unânime de quem por ali passa, fazendo com que casais abarrotados por esta sensação decidam por celebrar sua união na mais bela e inspiradora quinta da primeira metade do século XVI, ainda existente em Portugal.













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