• ALE GOMES

Minha descoberta de Portugal

Atualizado: 6 de Ago de 2020


Por Adriana Bechara 


O que levou Adriana Bechara, ex-editora na Condé NastBrasil a se mudar para Lisboa com a família depois de uma volta ao mundo feita em 2017

De patinho feio da Europa ao spot trendy do turismo internacional, Portugal vive dias de glória. Até aí nada de novo, até que pus os pés por aqui como o último país da minha volta ao mundo. A expectativa era zero, mas a realidade? Dez! Amei a energia dos lugares, das pessoas e senti aquela vibe de prosperidade que faz a gente acreditar que pelo menos em algum lugar do mundo as coisas ainda vão dar certo. Já estão dando. Não sou a Maya Gabeira, mas o desejo de surfar nesta onda me deu o maior barato. Voltei para o Brasil com a certeza de que criaria minha filha em Lisboa. Ao contrário de muita gente, não vim ver no que dá. Vai ter que dar. Porque a vida urge e a hora é agora. Colocamos (eu e meu marido Fernando) nossa filha na escola e mexo meus pauzinhos para começar de fato uma nova etapa de vida,  pessoal e também profissional.

Porquê Portugal? Enquanto o mundo sofre drásticas transformações de comportamento em que nada pode ser mais cafona do que “looks do dia” e consumo desenfreado, eles aqui pularam essa fase por conta de crises econômicas sérias. Ou seja, a ‘cultura do ter’ nunca foi mais importante do que a ‘cultura do ser’. Um valor, isso sim chique, que pretendo passar para minha filha. Nessa nova fase, uma reeducação de consumo, “veio a calhar” e até nisso as marcas e lojas me ajudam, porque se quiser consumir moda, vá para Paris. Digo amém e sigo em frente. Não pense que as festinhas sem grandes produções para crianças de quatro anos são sinal de pobreza. Na verdade, os aniversários são comemorados com alegria e zero ostentação, por questão de princípiosmesmo. Na minha modesta opinião, uma aula de civilidade.

Ainda em lua-de-mel com o país e a cidade de Lisboa, vejo dignidade nas curtas distâncias, na cultura de bairro onde podemos ouvir um “bom dia” de um desconhecido, porque, afinal, não viemos só do Brasil, viemos de São Paulo. Ainda sem o olhar cansado, me deleito com cada nova esquina, rua, bairro que ainda não tinha ido. E estou amando desvendar os segredos do lugar sem a angústia de quem vai embora em breve. Dentre as descobertas que mais gosto estão: a loja da Vida Portuguesa no Largo do Intendente, o restaurante Prego da Peixaria em Alvalade, o indiano Chutnify no Príncipe Real, as amêndoas caramelizadas com flor de sal do Frutos do Mercado no mercado do Campo de Ourique, os sucos da Veggie Wavee o brunch do Fauna & Flora. Ah, o direito de ir e vir, de frequentar museus maravilhosos, parquinhos limpos e cuidados por todo canto e de desfrutar de uma cidade friendly, não tem preço. Mas nada disso me faria sentir tão em casa quanto a sensação de que sim, temos muito em comum com os ‘tugas’. A começar pela língua e por códigos tão subjetivos que sequer consigo enumerar. Deixo a tarefa para os antropólogos de plantão. Aquela sensação de não-estrangeiro que só senti aqui mesmo, na terrinha. E olha, já rodei um mundo e meio.

Aprendo a cada dia e também entendo o dilema existencial dos locais com a avassaladora entrada de gente, de capital e de problemas estrangeiros. É tudo muito novo para eles também. Não deixa de ser uma experiência enriquecedora estar no lugar menos confortável da balança, em que muitos de nós, abastados ou não, podemos nos defrontar com questões xenófobas. Imaginem! Sim, elas existem aqui também. E se mesmo os brasileiros muitas vezes reclamam da quantidade de conterrâneos, dá para calcular que não são os únicos. E, como em qualquer lugar do mundo, aqui também não é o paraíso. Mas também está longe do inferno. Beeem longe!

Ilustração: www.carolinakoziski.com

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