• ALE GOMES

O ARTISTA DA MALA E DO PORCO EMPALHADO



 Por Julia Flamingo

Uma homenagem a Nelson Leirner

“Quando o Nelson vinha a Portugal, ele tinha sempre a mesma questão: precisava comprar não sei quantas malas para levar todas as bugigangas, que eram parte das suas obras, de volta ao Brasil!”, lembra José Mário Brandão, diretor da galeria lisboeta Graça Brandão, que expôs a última individual do brasileiro até novembro do ano passado. Nelson Leirner faleceu alguns meses depois, no dia 7 de março de 2020, no seu apartamento no Rio de Janeiro. Aos 88 anos, foi vítima de um ataque cardíaco. E a notícia ruim, como de costume, chegou rápido ao outro lado do oceano. Apesar de muito ligada aos brasileirismos, a obra de Nelson Leirner era internacional: suas obras podiam viajar quantas vezes fossem; seu vocabulário seria compreendido em qualquer lugar do mundo.  

Fernanda Lopes lembra que muito mais do que um ateliê, o estúdio de Nelson no Rio era um galpão para guardar as centenas de objetos que ele adquiria – o Saara, a zona de comércio popular carioca, era para ele uma perdição. Nelson comprava tudo em grandes quantidades: Mickeys, Minnies, Tarzans, miniaturas de macacos, elefantes, tartarugas e faraós, adesivos, santos, bichos de pelúcia, tudo em atacado. “Quando ele era convidado para uma exposição, ele colocava os objetos em malas e montava no espaço expositivo do jeito que queria. Depois guardava tudo e levava embora”, conta Fernanda Lopes, curadora assistente do MAM-RJ. Ela explica: “Ele não estava interessado na imagem em si, como a do São Jorge ou da Santa Ceia. Ele queria comprar todos os São Jorges que via e todas as reproduções de Santa Ceia porque falava sobre a escala industrial que aquelas imagens ganhavam. O fato de as pessoas nunca terem visto a Mona Lisa original, mas conheceram sua imagem porque ela estampa tantos objetos, isso o interessava - a reprodução e a transformação daquilo em objeto de consumo”. Como Andy Warhol e Robert Rauschenberg nos Estados Unidos, Nelson Leirner também fazia obras em série questionando o pensamento tradicional de enaltecer as obras feitas pelas mãos da figura de um artista genial. Sua execução manual se limitava a combinar aquelas centenas de miniaturas em cima de skates – série de obras que ele intitulou de “Missa móvel” – ou em cenários lúdicos como campos de futebol.

Não era só ao enaltecer o conceito, a ideia, e produzir obras múltiplas a partir de apropriações que ele se aproximava do pensamento do Marcel Duchamp. Assim como o criador do Ready-made, que levou o urinol para um salão de arte em 1917, Nelson questionava o que se entendia por arte, no contexto brasileiro. Em 1966, quando enviou seu “Porco Empalhado” para o Salão de Arte Moderna de Brasília, para sua surpresa, a obra foi aceita. E para a surpresa do júri, Nelson questionou e solicitou publicamente uma explicação do porquê o porco empalhado dentro de uma caixa de madeira havia passado pelo crivo dos jurados. Era com muito deboche e ironia que ele alargava os limites do que se entendia por arte – quais eram os critérios para que a sua obra fosse aceita e de outros colegas não?

Filho da escultora Felícia Leirner e do empresário Isai Leirner, Nelson cresceu em um ambiente ligado à arte brasileira (da família também fazem parte nomes como a artista Jac Leirner e a crítica Sheila Leirner). Isai foi um dos fundadores do MAM de São Paulo, em 1948 e, desde muito cedo, Nelson percebeu como isso facilitou aaceitação dos seus trabalhos. “Ele queria dar a ver todas estas engrenagens que fazem funcionar o mercado da arte para além da relação entre artista e obra”, conta Fernanda Lopes.  E era isso o que sustentou suas críticas ferrenhas ao mercado durante décadas. Em entrevista a Agnaldo Farias, para o livro escrito pelo curador publicado em 1994, Leirner disse: “A qualidade do meu trabalho não possuía a importância que lhe foi dada. Era uma pura questão de prestígio social [...]. Quem trabalha seis meses não pode surgir de repente e ter seu trabalho aceito [...].Era natural que começasse a soltar tudo o que estava dentro de mim, logicamente num sentido de contestação. Esse foi meu começo”.

Suas críticas eram embasadas na história da arte. Em“Homenagem a Lucio Fontana”, o artista paulistano fez uma releitura da famosa pintura com um rasgo no meio transformando-a numa tela envolta por tecidos coloridos e zíperes. “O Nelson era muito culto, degustava a história da arte, e fazia questão de chamar atenção para os brasileirismos com muita piada. Esse trabalho é incrível,porque o Nelson usou o material de onde a sua própria família ganhava dinheiro, a indústria têxtil, e incluiu a visão conceitual que só ele tinha”, conta o artista português Albuquerque Mendes que conheceu Nelson nofinal dos anos 1990. Quase trinta anos e muitas parcerias depois, Albuquerque foi curador da exposição lisboeta na Galeria Graça Brandão no ano passado, a pedido do próprio Leirner. É bom notar que “Homenagem a Lucio Fontana”, de 1967, também punha em cheque o suporte tradicional da pintura e, sendo uma série de múltiplos, causava desconcerto nos colecionadores que estavam sempre tão acostumados a ser donos de obras únicas.  

Momento auge da sua carreira também foi o curto período em que o Grupo Rex existiu, entre 1966 e 1967. Criado também por Wesley Duke Lee e Geraldo de Barros, o grupo tinha um espaço experimental de exposições, a Rex Gallery & Sons, em São Paulo. Na inauguração da galeria, Nelson expôs “Adoração (Altar para Roberto Carlos)” em que uma foto do cantor envolta com luz néon eracircundada por doze imagens de santos católicos e uma cortina. Para se aproximar da instalação, o público tinha que atravessar uma catraca – assim, Nelson criticava a passividade com que as pessoas adoram imagens vendidas comercialmente. Em outra exposição na Rex Gallery, Nelson ironizava frases frequentemente ditas por espectadores de mostras como “Eu também sou capaz de fazer isso” ou “Meu filho faria melhor”. Na obra “Taxi painting” qualquer pessoa poderia desenhar numa grande tela na galeria, era só ligar o taxímetro e pagar pelo tempo que estivesse trabalhando. O happening de encerramento do espaço ficou para a história: foi anunciado que qualquer trabalho exposto poderia ser levadogratuitamente para casa. Mas, é claro, que Nelson não deixou barato. Ele criou uma série de obstáculos, como um quadro enfiado num bloco de concreto armado e outro preso com trinta pregos na parede. A ideia era estudar a reação do público, que acabou sendo agressivo. Em oito minutos a luz acabou, já que alguém cortou o curto-circuito do espaço, e a galeria ficou completamente vazia. Levaram até os obstáculos que Leiner tinha colocado para brincar com seus convidados.









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