• ALE GOMES

O que a Arte pode fazer quando a civilização entra em colapso?


Por Thiago Cóstackz

É com essa pergunta que o artista multimidia e ativista ambiental brasileiro Thiago Cóstackz começa seu novo documentário “A Terra de Frente”, com 1h de duração, lançado há pouco mais de um mês no Museu da Imagem e do Som em São Paulo. Resultado de sua última expedição a Groenlândia e a Amazônia, a expedição chamada pelo artista de “Tupiland Goes to Greenland”, algo como “A Terra Tupi vai a Groenlândia”, onde instalou diversas obras de arte e performances para chamar atenção sobre os muitos problemas que interconectam esses dois locais, aparentemente sem ligação direta. Segundo o artista: “a Amazônia está sendo destruída por uma mistura de interesses econômicos sem limites, flexibilizações da legislação ambiental e em grande parte pelo completo desprezo do atual governo brasileiro aos povos indígenas e a pautas de meio ambiente”. A Groenlândia por sua vez sofre com impactos provenientes de todo mundo, que estão resultando nas mudanças climáticas que ocorrem em escala Global. A expedição foi feita em parceria com a empresa francesa Air Liquide. Cóstackz foi Embaixador de Sustentabilidade da Puma Sport no Brasil por 8 anos, foi quando criou o projeto S.O.S Terra em 2008, uma ação que utiliza o poder instigador da arte para chamar atenção para problemas ambientais de nosso tempo. “A arte, esse conjunto de expressões ligadas à estética e à comunicação conceitual não nasce necessariamente para ser ativista. Mas penso que seu poder de provocador pode ser usado para retratar e instigar em um tempo em que a civilização parece ruir. Um tempo em que a ciência ainda sofre com os efeitos do obscurantismo, um tempo em que ainda estamos discutindo quem é humano ou não, quem merece viver ou não. Quando a catástrofe é iminente, o centro do debate intelectual pode ser a teoria ou a ação buscando o papel dos artistas nas revoluções inquietantes de seu tempo. Como teorias e visões podem se converter em ações? A Arte, essa habilidade humana de conseguir desenvolver abstrações através de conceitos pré-estabelecidos ou não, foi usada por mim durante todos esses anos para instigar os observadores a refletirem sobre nossos impactos e modelos de sociedade. Se podemos usar todo esse poder da Arte para colocar um espelho diante de nosso tempo, por que não fazê-lo?” diz Cóstackz. Portanto, o artista cria formas etéreas e idílicas na esperança que isso possa sobreviver além do presente, ao mesmo tempo em que o retrata. Ele não mata a poesia e a beleza, mas não também não é escravo delas. Um artista do hoje, que bebe o máximo do que seu tempo pode dar-lhe em termos de tecnologia, informações e possibilidades. É fortemente influenciado pela política, antropologia, história, ciência, cultura POP e conectado aos ideais do Gesamtkunstwerk, o conceito de “obra de arte total”, geralmente atribuído ao compositor alemão Wagner, em que o artista se utiliza de diversos suportes, resultando na união das artes visuais, música, teatro, literatura, canto e dança em uma única obra de arte. Criando, portanto, a “obra de arte total”. Integra desde 2017 o duo C2H Cóstackz and Hjörvar, em parceria com o músico islandês Hjörvar Hjörleifsson, que assinam a trilha do filme. “A utilização de multissuportes em meu trabalho é uma forma de aquietar meu instinto criativo, que não vê diferença entre pintura ou escultura, pois ancestralmente existe em mim apenas o forte desejo de subverter a realidade e criar Arte. Às vezes minimalista e poético, às vezes bizarro, new glamrock e existencialista.  Seja na ironia do pop, no deboche direcionado às caricaturas falidas de nosso tempo ou na densidade de rituais humanos mais antigos que o status quo, tudo serve de referência em minhas construções. Ser um artista, um livre-pensador e um reformador natural nunca foi tão arriscado, nunca foi tão revolucionário pensar livremente. Às vezes você é ameaçado, silenciado, tiram seu dinheiro, mas não conseguem matar a centelha, o estralo que cria e instiga através de formas e conceitos pré-concebidos. Essas são as consequências de ser artista no seu tempo, você grita, retrata, expõe e às vezes sofre as consequências por fazer isso, mas jamais para.” Nos conta o artista. Essa foi a segunda expedição do artista, que em 2012 realizou a primeira expedição artística e cientifica ao redor do mundo percorrendo mais de 62.000 quilômetros ao redor do mundo passando por 4 continentes. “Algo que sempre me encantou nas expedições mais antigas foi a fusão dos temas pesquisados. Sempre me impressionou a habilidade de unir artistas, cientistas e até antropólogos em seus complexos estudos em territórios até então inexplorados. Sempre fui inspirado pelo movimento conservacionista e seus pioneiros, que ainda no século XVIII e XIX engatinhavam com o que viria a se tornar o movimento ambientalista mundial. Impossível olhar e não ter sido influenciado por pessoas como: John Evelyn, John Muir, Henry David Thoreau, David Attenborough, Jacques Cousteau, Beatrix Potter e José Bonifácio.” Enfatiza Cóstackz. “Eu sou da esquina do Brasil, do ensolarado e folclórico Rio Grande do Norte, terra de parte dos meus ancestrais, o povo potiguara! Em 1992, ano da RIO 92, A Conferência das Nações Unidas Sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, eu ganhei da minha mãe um caderno do evento e isso teve enorme impacto sobre mim! Eu tinha apenas 7 anos, mas isso me fez começar a me mobilizar, realizando ações ambientais já com essa idade. E com menos de 10 anos eu já mobilizava meus colegas na escola e na rua em campanhas pela preservação, pelo plantio de árvores e também contra o lixo e a poluição dos mananciais em minha cidade, onde a produção canavieira despejava enorme quantidade de rejeitos no rio Ceará-Mirim e poluentes na atmosfera através das queimadas, mas estávamos ainda na metade dos anos de 1990! Esse debate ainda demoraria muitos anos para se intensificar e para que vozes como a minha fossem mais amplamente ouvidas.” Cóstackz tem se mostrado um dos artistas mais inquietos de sua geração, realizou mais de 70 ações e exposições em países como: Alemanha, Rússia, Dinamarca, Islândia, Holanda, EUA, Inglaterra, Groenlândia e Itália, além de intervenções em lugares como o Oceano Glacial Ártico, Atlântico Sul, Caatinga e Florestas tropicais. Seu nome tem sido associado a grandes realizações e a astros internacionais, como Roger Waters (ex-Pink Floyd), que o escolheu para realizar uma intervenção invocando questões ambientais e de Direitos Humanos no aclamado show The Wall, para 70 mil pessoas no Brasil, em 2012. Agora lança o documentário “A Terra de Frente” como um convite ao expectador, uma forma de fazer sua voz de luta ecoar mais longe, tocando corações e inspirando mudanças. Hoje! Então, o que estamos esperando? www.costackz.com

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