• ALE GOMES

PAULA KLIEN



A forma da água


Com exposição no Rio de Janeiro, a carioca Paula Klien conta sobre a decisão de deixar a fotografia de moda para agarrar os pincéis - e o nanquim
Por Julia Flamingo




Lidar com a água é lidar com o descontrole. A água inunda, se espalha e provoca infiltrações enquanto o homem passa a vida tentando contê-la, constrói represas e sistemas de irrigação, mas ela sempre dá um jeito de escoar. Por vezes, ela impõe o poder da sua abundância e muitas outras o desespero da sua escassez. Nas pinturas de Paula Klien, a água não é transparente, mas preta, já que é misturada com nanquim – a outra matéria-prima do seu trabalho. E é a partir do jogo de controle e descontrole sobre litros e mais litros do líquido escuro que a obra de Paula ganha forma. Em telas e papeis de grandes dimensões, ela faz marcas com a tinta e depois seleciona o que deve continuar registrado e o que deve ser apagado, num exercício continuo de memória e esquecimento. Ela vai criando cada vez mais camadas de nanquim e água que resultam numa pintura abstrata com todos os possíveis tons de cinza entre o branco da tela e o preto da tinta.

“Eu não gosto de cor, então uma das minhas primeiras decisões como artista foi que meu trabalho seria preto e branco”, conta a carioca sempre vestida com roupas monocromáticas, que parecem estar de acordo com a estética minimalista da sua obra. Mas a economia de informação visual nunca esteve muito presente na sua carreira até ali: trabalhou como fotógrafa de moda durante de 10 anos, um mundo onde, sabemos, a opulência e o glamour prevalecem. “Eu nasci desenhando e pintando e passei minha infância e adolescência inteira voltada para a criação. Eu dançava, escrevia, desenhava figurinos, montava peças de teatro. Mas entrei de gaiato no mundo da fotografia de moda e, quando fui perceber, tinha me afastado totalmente da arte”, conta. Isso aconteceu em 2004, quando ela foi desafiada por uma agência a construir books descolados, como se fazia nos Estados Unidos naqueles anos. O convite inesperado veio depois de uma experiência como modelo - ela dava pitacos em todos os itens no set de fotografia, desde a roupa e cabelo até iluminação e enquadramento da foto. “Eu era uma modelo exigente mas trazia boas críticas que agregavam às sessões. Aceitei o desafio e virei a maior bookeira do Rio de Janeiro!”, brinca. Não demorou para que a carioca de 51 anos começasse a fazer editoriais de moda e fotografias de propaganda que estampavam banners em enormes empenas de prédios no centro do Rio de Janeiro. Sua formação foi botar a mão na massa e estudar iluminação para valer.


Se a carreira como fotógrafa de moda começou timidamente, ela encerrou com festa de arromba: em, 2014, Paula deu uma festa no Jockey para anunciar que o livro “Pessoas me interessam”, lançado naquela noite, seria seu último trabalho como fotógrafa. “Eu cansei da moda. Tudo é muito glamuroso e o que importa é o que se vê. E eu queria me voltar para dentro, para o veio artístico que nasceu comigo”, explica. Em 2016, teve seu primeiro mergulho na carreira artística, quando decidiu fazer uma residência em Berlim, na Kunstgut. Foi lá onde descobriu o nanquim, tinta feita com pó de carvão, água e cola e usada tradicionalmente pelos chineses há mais de 5000 anos. Despachou bagagens repletas de nanquim para o Brasil sem nem mesmo saber o que fazer com aquilo. “O maior desafio é: como produzir algo novo? Como dar sua cara autoral e criar um trabalho realmente bom?”, pergunta. A resposta veio ao final de três meses metida no estúdio: “No começo, eu produzia um desenho por hora e cada um parecia ser de um artista diferente e não feitos por mim, era desesperador!”, conta. Quando finalmente chegou onde queria, levou suas telas para uma galeria de Berlim, que também validou o início da carreira dela como artista. Em fevereiro de 2017, Paula fez sua primeira individual na AquabitArt Gallery: “Os alemães gostam muito do meu trabalho, acho que é porque ali é tudo mais acinzentado...no Brasil, somos muito ligados a cor, né?”. Ponto alto daquele ano também foi a exposição num projeto solo durante a feira START, na consagrada Saatchi Art Gallery, voltada principalmente para o trabalho de artistas emergentes.

Para os próximos meses, os planos da Paula são todos em solo brasileiro. A partir de 4 de dezembro, ela abre uma individual no Centro Cultural dos Correios, no Rio de Janeiro, com curadoria de Denise Mattar. Em março, a galeria paulistana Bianca Boeckel inaugura a primeira exposição da artista no espaço e, em julho, é a vez de Salvador, onde ela terá uma individual no MAM.

O trabalho com um quê de extremo oriente leva à aproximação da sua estética e, principalmente, do uso do nanquim, com obras realizadas por artistas contemporâneos chineses como Li Huasheng e Zheng Chongbin. “Depois de conhecer alguns desses artistas e me aprofundar na história e filosofia por trás do nanquim eu me identifiquei e fez sentido com o meu trabalho...mas, na verdade, eu não conheço a China e nem de arroz eu gosto!”, brinca. E o que, então, une seu trabalho com esse pensamento oriental? “A veneração do tempo e do ciclo da vida, de acreditar cegamente que depois das trevas vem o recomeço”.

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