• ALE GOMES

Pedro Léger

Atualizado: 3 de Ago de 2020


Por Lu Moreda 


Entre o azul estaladiço do Algarve e as nuvens de tormenta do Ártico conheci Pedro Léger Pereira, o premiado arquiteto e escultor português, que há 7 anos vive no norte da Noruega.

Quando a câmera de nossa videochamada abriu, vejo-o confortável numa rede. Exclamo: Uma rede! Quesurpresa! De pronto ele conta que a trouxe do Brasil, quando viveu em São Paulo. Pedro diz ter uma alma nômade. Viveu em muitos lugares: Los Angeles, Lisboa, Londres e gosta de viajar e desenhar os monumentos, conhecer as grandes obras arquitetónicas de forma presencial. Tocá-las. Senti-las.

De maneira inesperada, Pedro interrompe o assunto e pede gentilmente para eu sair da contraluz.

Já com meu rosto iluminado, ele diz que a origem de tudo está na observação. E pergunta-me: quantos pilares tem o Teatro D. Maria II? Sabe quantas pessoas passam por ali diariamente e não sabem responder a esta pergunta? Olhar não é ver, Lu. - concluiu.

Pedro mostra-se rápido.

E é nessa fala intensa, precisa e amigável que revela quem surgiu primeiro; a arquitetura ou a escultura. Foi entre a Faculdade de Arquitetura de Lisboa e a The Hage, na Noruega, uma escola de arquitetura conhecida pelas suas linhas rígidas, ainda estudante, que ouviu de um professor que suas maquetes eram verdadeiras esculturas. Ou seja, esculpir é o nascer de sua obra, a faísca do processo criativo. Sarcástico, diz que, a diferença entre arquitetura e escultura é a matemática para a inclusão de janelas.

Nessa pausa recheada pelo sentido de humor, distrai-se com a tempestade que está a se formar pela janela de seu ApART(e)studio, como chama seu ateliê no Ártico, o elo entre a Terra e o seu coração. Foi a partir desta conexão, a intensidade da natureza e o silêncio de viver no pólo que seu processo e produção criativa expandiu. Há tanto para se fazer aqui. É uma tela em branco. - comenta.

Entre exposições e projetos arquitetónicos que privilegiam o entusiasmo de explorar o potencial da natureza, suas formas e processos, Pedro desenvolveu o ApOD, uma peça única, um pleno romance entre a arquitetura e a escultura, completamente integrado ao ecossistema, para observar, abrigar-se ou venerar o tempo que, no Ártico, as quatro estações fazem-se presentes num minuto.


Quando pergunto sobre uma possível utopia entre a tendência estética mais rígida da The Hage e sua proposta de expansão da arte, como casas que crescem, peças combinadas entre si, Pedro contesta imediatamente e explica-me: é a rigidez da forma que a torna flexível, que permite uma infinita combinação entre elas. Ganhar ou perder área. Multiplicar! Expandir!

Sem dúvida que “expansão” é a palavra mais falada ao longo de nossa conversa e esta inquietude por buscar novos materiais, desenhos e projetos que reproduzissem conceitos mais sustentáveis, responsáveise integrados a nós e ao ecossistema fez nascer o eyeFrames, os óculos sustentáveis by Apart(e)Studio.Pedro já havia criado uma linha de jóias outrora. Entretanto, desta vez, favoreceu à observação. Claro! Os óculos são feitos em madeira. São levinhos e muito exuberantes. São peças que encaixam, transformam-se, expandem – é possível mesclar os dois modelos redondo e quadrado ou mudar suas hastes - e têm piada!

Se para Pedro a origem está na observação, logo ele atenta para o céu do Algarve que mudou - após nossa conversa de uma hora – e deixa o suspiro nostálgico de alguém que está isolado faz tempo.

É um novo mundo. – diz Pedro. Sim, para todos nós, seja nos trópicos ou no ártico. – respondi com toda a fé que uma brasileira pode ter em 2020. Que a arte nos salve!


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