• ALE GOMES

Teçume da Floresta



Por Lully Vianna


Em julho de 2013 recebi um convite. Não imaginava que ele mudaria a minha vida para sempre – e que impactaria a vida de tantas mulheres, empoderando e dando voz a elas.E a mim.

Esse convite foi feito por Thiago Cavalli, responsável pela ONG Casa do Rio, da qual hoje me orgulho de ser membro. De uma forma leve, sem expectativas, com o coração aberto, Thiago me levou para uma viagem ao Rio Tupana, no Amazonas. A ideia era conhecer e entender a realidade de mulheres agricultoras ribeirinhas que já faziam artesanato para uso doméstico e tinham muita vontade de aprender novas formas de usar seus saberes.

Trabalhar sob o sol da Amazônia, roçar a terra, pegar na enxada, colher a mandioca e trazer nas costas... não é fácil. Fazem isso desde os 7 anos... quando as conheci,estavam beirando os 50. Descrevendo o seu trabalho cotidiano, você já percebe a força dessas mulheres, sua luta para prover o sustento de seus filhos. O artesanato era então uma oportunidade de gerar renda extra com menos desgaste físico – depois de uma certa idade o corpo pede para pegar leve... Já embarquei pensando em uma forma de trazer renda pra elas.


E lá fui eu para a Amazônia, mais especificamente para a Casa do Rio, uma cabana no meio da floresta às margens do Rio Tupana, onde a energia vem da natureza, e a tecnologia é visível no límpido céu noturno, nas luzes dosinúmeros satélites rodeando o espaço.

Assim que cheguei, fomos visitar essas mulheres, cada uma em sua casa. E foi ali que percebi a importância de uni-las ainda mais… e principalmente o de quanto somos pequenos perante a natureza.

Pensava que todas habitavam uma comunidade beira-rio, mas não... moravam distantes uma das outras, 1 hora, 2 horas, 5 horas, 6 horas rio acima. O rio é a única forma de acesso, não existem trilhas, caminhos ou estradas pela mata fechada. Tem onça, cobra, perigos de verdade e muitas histórias e lendas; se verdade ou não, eu não sei, mas realmente me assustava! Acho que até a terceira ou quarta vez que mergulhei no Rio Tupana, entrava n’água com um canivete, afinal essa tal de cobra grande mexia com os meus nervos. E se ela me pegasse? Na minha inocência achava que estaria segura, que meu canivetinho ia dar conta J

E assim ficamos por 5 dias descendo e subindo aquele rio, para conhecer de perto a realidade dessas bravas mulheres. Cada, casa por mais humilde que seja, tem o toque feminino, nos detalhes, nas cores da parede, na toalha de plástico da cozinha, nas panelas brilhando, nas peneiras e nos paneiros trançados, ou na horta de temperos…

Se antes eu achava, naquele momento tive certeza que em parceria precisávamos desenvolver produtos quetrouxessem renda e independência para elas.

Fui sempre muito bem recebida, de braços abertos, com macaxeira (mandioca), café e principalmente muitos sorrisos, e hoje posso chamá-las de amigas/comadres, pois desde lá firmamos uma parceria e lutamos juntas até hoje por causas e por causos que a vida nos coloca.

Depois de conhecer cada casa, fizemos nossa primeira reunião, na escola que deveria ser da comunidade de São Sebastião, que estava fechada por falta de professor.

As mulheres limparam a escola, trouxeram seus artesanatos, matéria prima (cipó, palha, arumã…) e claro a merenda – que não pode faltar nos encontros. Cada uma traz um pouco do que tem. Começamos a trabalhar econversar muito e chegamos à conclusão que queríamosfazer uma bolsa. Elas ainda não sabiam das possibilidades de ampliar o uso de suas técnicas artesanais, mas ficaram animadas com a possibilidade.

Começamos a conversar sobre os detalhes… e foi aí que tudo mudou. Uma das artesãs me pediu para anotar asmedidas da bolsa, e eu sem entender a razão disse que ela mesma poderia anotar: “Não Luly, anota você.” Anotei.


Na volta para Casa do Rio, já na canoa, conversando com o Thiago, chegamos à conclusão que não adiantava criar uma independência financeira para o grupo, se não houvesse uma independência intelectual, nesse caso a alfabetização. Teríamos que fazer algo…

No dia seguinte Dona Branca chegou na Casa do Rio comum cesto para finalizar, que se tornaria uma bolsa. Depois de mais horas de trabalho, vimos o resultado e não acreditamos, era linda demais! Dona Branca, batizou sua criação de Bolsa Paricá, em homenagem a um igarapé próximo a sua casa. Naquele momento, mal sabíamos que a partir da Paricá viria a Tauari, e tantas outras, e que em alguns meses seriam vendidas e usadas por mulheres fortes e influentes como a Daniela Falcão, a Astrid Fontenelle, a Mariana Ximenes, e customizadas por muitas marcas, entre elas Cris Barros e Giu Romano.



Sabíamos da necessidade urgente de criar um projeto de alfabetização para as mulheres… e assim se formou graças ao Thiago, Jeff Ares e as assistentes sociais do Careiro, o Projeto Rosa.

Para levantar fundos para a implantação deste programa nos unimos e fizemos uma campanha independente, na raça mesmo, engajada pelo Jeff, e assim vendemos bolsas Paricás por R$ 500,00. Desse valor R$ 100,00 eram destinados para para artesã e R$ 400,00 para um fundo para custear o transporte das mulheres até a escola e pagar uma professora qualificada. Após alguns meses de existência, o Projeto Rosa ganhou apoio daBrazilFoundation, que as abraçou e contribuiu para mais dois anos de existência.

Mas foi pelo olhar sensível e apurado da Esther Giobbi que se iniciou a venda no atacado; foi ela quem fez a primeira compra grande de produtos, e em seguida os customizou e comercializou em sua loja em São Paulo. Somos muito gratos a ela pela confiança e pelo incentivo. Artesanato sem pedido, sem encomenda, não sobrevive, por mais bonito que seja.


A revista Vogue também não só nos apoiou, mas deu as mãos, vozes e rosto para essas mulheres. O grupo, após alguns pedidos, ganhou nome, nota fiscal própria, telefone, catálogo e instagram, feito pelos próprios Jovens do Tupigá (projeto de jovens da Casa do Rio) em parceria com a Fundação Pedro Jorge. Nasceu assim o Grupo de Mulheres Artesãs Teçume da Floresta.

Hoje as mulheres da Teçume são referência em artesanato brasileiro. A forma que elas trabalham o cipó, confesso que estufo o peito para dizer, é a melhor do Brasil. São caprichosas, criativas, representam a moda da floresta com os tingimentos que a natureza oferece. Do jenipapo ao mais tradicional, o urucum. Sobretudo, representam a independência do feminino, a força de se reinventar.

Escrevendo aqui sinto nostalgia. Lembro de quando ligava na rádio da cidade base, Careiro Castanho, para mandarmensagem pelo programa sobre alguma produção.Simmm elas escutam rádio, aquele de pilha, sabe? No Tupana ainda hoje não pega celular. A forma de comunicação é através da rádio local. Eu tinha que ligar lápara mandar mensagem, para falar que estávamosesperando a produção, ou simplesmente para incentivá-las ou pedir para alguém entrar em contato comigo. E sempre que ligava, o locutor da rádio, muito gentilmente, me perguntava se eu não queria aproveitar e oferecer uma música para elas. E a minha resposta sempre era:

- Claro que sim. Toca Robertoooo!!! Afinal são muitas emoções que eu vivo e vivi!

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